Foto: Ana Pigosso

Atualmente em cartaz na mostra “Janelas para Dentro”, as obras “Os que não sabem o que acontece” e “Micha #2: Casa Leme”, do artista Raphael Escobar, estabelecem diálogos e tensionamentos com o conceito arquitetônico da casa residencial que abriga a mostra. Projetada por Paulo Mendes da Rocha na década de 1970, a casa foi concebida através de uma ideia de integração com o espaço público, noção que é questionada pelo artista dentro do contexto social em que a construção está inserida.

As duas obras tiveram como inspiração relatos de jovens que cumpriam medidas socioeducativas na Fundação Casa, onde o artista atuou como educador. “Os jovens compartilhavam comigo que entravam e roubavam as casas do Morumbi. Então, quando fui convidado a participar da exposição não saiam da minha cabeça esses relatos. O que aconteceria se um desses jovens entrassem nessa casa?”, comenta o artista.

No primeiro trabalho, localizado na frente da residência, lê-se os dizeres “Os que não sabem o que acontece” num letreiro comumente visto em fachadas de prédios. “Esse letreiro funciona como um prólogo da casa e reforça o caráter privado do espaço e é uma referência ao que acontece à noite, quando essas casas são frequentadas sem que ninguém saiba. A frase foi tirada de um rap do Sabotage, Um bom lugar, em que ele diz: Há três tipos de gente/ Os que imaginam o que acontece/ Os que não sabem o que acontece/ E nós que faz acontecer“, comenta o artista. 

Já num segundo momento, ao passar pela porta da casa, pode-se ver uma espécie de “porta-chaves”. Nele, o artista posicionou cópias de chaves e uma micha – tipo de chave padrão frequentemente utilizada para destravar variados modelos de fechaduras. 

Foto: Ana Pigosso

As duas obras evidenciam questões de classe e criam um diálogo com a arquitetura de Paulo Mendes, como pontua o curador Guilherme Wisnik no texto da mostra: “[…] esta mostra busca dialogar criativamente com os ambientes da casa, que já é, em si, uma obra de arte. Diálogos que funcionam tanto por afinidade como por subversão, estabelecidos aqui por artistas que operam com a temática da cidade e incorporam em seus trabalhos os problemas e os elementos da esfera urbana, criando curtos-circuitos e atravessamentos entre polaridades como o urbano e o doméstico, o cotidiano e o monumental, o formal e o informal, a elite e a periferia.”

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Serviço

Endereço: Rua Circular do Bosque, 628 / São Paulo

Datas: 29 agosto – 10 outubro 2021

Visitação (apenas com agendamento prévio): Sábado – Domingo, 12h–-17h