Galeria Leme

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Entre a estrela e a serpente | Coletiva

21.05.22 _ 16.07.22

Artistas: Adriano Machado, Aislan Pankararu, Aldemir Martins, Aline van Langendonck, Ana Amorim, Ana Elisa Egreja, Eleonore Koch, Felipe Seixas, Fernanda Galvão, Helio Fervenza, Heloisa Hariadne, Ilana Tzirulnik, Julia Gallo, Marta Jourdan, Mayana Redin, Neves Torres, Raquel Garbelotti, Regina Vater, Selva de Carvalho, Simone Moraes, Susanne Schirato, Tiago Mestre e Tiago Sant’Ana

I.

O ciclo de vida de uma estrela é de aproximadamente 400 milênios, tempo em que são constituídos e organizados muitos elementos químicos. A supernova é o fim da vida de uma estrela. É quando ela deixa de fazer fusões nucleares, consumindo mais energia do que era capaz de produzir. A estrela diminui de tamanho e libera energia muito rapidamente, e assim, entra em colapso. Embora não seja possível explicar as causas desses mecanismos estelares, estima-se que, no auge da explosão, seu brilho é tão intenso que pode chegar a ser 1 bilhão de vezes maior que sua luz original. Na sua morte, uma estrela lança elementos e detritos que viajam pelo universo e podem formar planetas e até mesmo novas estrelas. Na Via Láctea, ocorrem cerca de três supernovas por século. A morte e o surgimento de uma estrela são acontecimentos parecidos pois liberam um brilho de muita intensidade.

II.

A sucuri, suú-curi, do tupi “morde depressa”, é a maior serpente do mundo. As fêmeas são maiores que os machos e chegam a ter nove metros de comprimento. Depois de copular, a fêmea pode comer o macho e viver sozinha o resto de sua vida. As sucuris não são venenosas, matam suas presas por sufocamento. Seu ataque é rápido: ela morde a presa na parte superior de seu corpo para ter apoio, enquanto se enrola com agilidade e a aperta para impedir seus movimentos respiratórios e cardíacos. Quando percebe que o animal está morto, a sucuri começa a devorá-lo pela cabeça. A elasticidade de sua pele e de sua musculatura e a facilidade em dilatar esôfago e estômago permitem que ela coma presas com até três vezes o diâmetro do seu corpo. Durante seis dias a serpente fica praticamente imóvel, enquanto enzimas e bactérias do seu intestino trabalham na digestão. Uma sucuri pode ficar até seis meses sem se alimentar.

III.

Olhar para o céu e desenhar a posição das estrelas eram hábitos fundamentais na vida de povos originários, que habitavam lugares como o que atualmente conhecemos como o Sítio Arqueológico da Serra da Capivara, no estado do Piauí, em plena Caatinga. As pinturas rupestres de constelações com mais de 30 mil anos registram os complexos conhecimentos astronômicos dessas pessoas, que também observavam os movimentos do Sol e as fases da Lua para, por exemplo, determinar o meio-dia solar e as transformações na biodiversidade local. Observar o Cruzeiro do Sul permitia que se orientassem geograficamente. Rituais, plantio, colheita, pesca e migração tinham seus ritmos interpretados de acordo com influências, flutuações e desdobramentos cíclicos dos fenômenos celestes que olhavam. Para muitos povos originários tudo que existe no céu existe também na Terra, como uma cópia imperfeita.

IV.

Da serpente, vê-se seu rastro, que, de tão grande, abriu na terra passagens que criaram o mundo, os igarapés e os rios. O movimento de ondulação do corpo de Boiúna rasgou e modificou paisagens e alterou o curso de rios. Seu deslizamento inscreveu sulcos no tempo que seguem sendo movidos e movendo coisas. O rastro de uma serpente é uma escritura de tempo no mundo em grãos de terra, umidades, matérias orgânicas e sedimentos.

“Dos milhões de criaturas que vivem na Terra, os seres humanos são as únicas que querem saber o que existe além de seu ambiente imediato, são as únicas que se preocupam com o que aconteceu antes de nascerem e que especulam sobre o que acontecerá depois que se forem”[1]. Seres humanos também são as únicas criaturas que alteram o tempo de muitos fenômenos que os rodeiam. Uma compreensão de mundo é oferecida pela compreensão de tempo no mundo. O tempo diz dos seres, os determina. O tempo é experiência, desenha ritmos. É uma estratégia para ficcionalização da vida. Também é usado como dispositivo em situações de opressão, como uma imposição aos ritmos dos fenômenos.

A mostra Entre a estrela e a serpente apresenta trabalhos que dialogam, valem-se e nutrem-se de distintas reflexões sobre o tempo. E esses tempos narrados aqui (o fim de uma estrela, o rastro de uma serpente, orientações provenientes de observações de fenômenos celestes que pautavam a vida) são histórias de mundo, são agentes de contextualização que aproximam os trabalhos enquanto simultaneamente também os diferenciam em suas provocações. Situar concepções de tempo entre a estrela e a serpente é uma estratégia para tentar vislumbrar alguns espectros de apreensão do tempo e as muitas interrogações que envolvem tais percepções. Tempos que a vista alcança, por assim dizer.

Vale também ressaltar que outro disparador importante para a mostra de caráter ensaístico, é o que se associa quase que de imediato com símbolos visuais próprios do gênero pictórico natureza-morta: a fugacidade da vida, a futilidade das vaidades, a inevitabilidade da morte, as frutas que apodrecem, a ampulheta instaurando a passagem e a implacabilidade do tempo, a anatomia de bichos mortos, a vida silenciosa e em pausa da matéria inanimada, a investigação do poder expressivo dos objetos do cotidiano em constituições intimistas de espaço. Essas imagens não foram necessariamente traduzidas ou apropriadas pelos artistas da mostra, mas antes, são instâncias postas em convivência.

O que distingue esses compêndios de trabalhos – os relacionados ao gênero natureza-morta e os contemporâneos – são, principalmente, os contextos que os circundam. Se, para as produções europeias dos séculos XVI e XVII estava em jogo celebrar o excedente agrícola, o mercantilismo e os gabinetes de curiosidades, os trabalhos aqui apresentados, produzidos no Brasil recentemente, narram um contexto de “pós-tudo”, de insegurança alimentar, de imposição de um ritmo de produção que exaure a terra, de distopia, de um mundo em declínio, do ponto de não retorno, do medo de perder o mundo… Narram a ansiedade, a desorientação, a falta de um possível onde não sufocar. Há horizonte para os humanos? Ou somos um breve capítulo na história do planeta, muito próximo de suas últimas páginas? Quantas vezes você já se pegou tentando situar certos acontecimentos? Antes ou depois da pandemia? 2020 é um ano que se arrasta até agora? E sobre isso, a linguagem, aquilo que se impregnou nos nossos corpos ou de que não ousamos nos desapegar, os nossos restos de mundo e a imensidão de coisas materiais que aglomeramos são registros e índices de um ambiente antropizado e agonizante.

Também estão presentes na Galeria Leme trabalhos que atualizam modos de fazer e pensar os enquadramentos, os temas, as composições, as motivações da natureza-morta. Vestir corpos pretos de frutas de plástico, produzir retratos-paisagens, escrever o tempo na casca de um ovo, contar os segundos e perceber que isso é vida, forjar e desacelerar acontecimentos, inventar anatomias, pensar o tempo no corpo, reter o tempo no gesto, aliar-se à matéria orgânica e aprender com isso, confrontar a ruína, reverenciar a passagem, a reformulação e o acontecimento do tempo, querer estar no ritmo, tornar rígido o movediço, fazer pintura e ser espaço, avistar naturezas-mortas no cotidiano, mudar a escala do ornamento e da arquitetura, questionar a arquitetura, escrever os ciclos dia-noite, noite-dia são procedimentos que se entrecruzam entre os trabalhos de artistas de distintas gerações. Sem a menor intenção de abarcar um arco temporal ou comprovar uma afinidade formal-conceitual entre os trabalhos, a mostra Entre a estrela e a serpente propõe embates e conversas entre esses gestos de invenção de tempos que se impregnam em letras, formas e cores, que escorrem pelos cenários e que estão imantados nos contornos e nas texturas dos objetos. Oxalá, que os gestos de Adriano Machado, Aldemir Martins, Aline van Langendonck, Ana Amorin, Ana Elisa Egreja, Aislan Pankararu, Eleonore Koch, Felipe Seixas, Fernanda Galvão, Helio Fervenza, Heloisa, Hariadne, Ilana Tzirulnik, Julia Mendonça Gallo, Marta Jourdan, Mayana Redin, Neves Torres, Raquel Garbelotti, Regina Vater, Selva de Carvalho, Simone Moraes, Susanne Schirato, Tiago Mestre e Tiago Sant’Ana nos façam crer que olhar o tempo redesenha as coisas, refaz o mundo. E que possamos olhar, desenhar e nos projetar para um momento futuro muito próximo e cheio de possíveis. Uma explosão, voos de detritos em busca de uma nova ordenação de ser, uma gigantesca ranhura desenhada por Boiúna que instaure outros tempos, corpos-estrelas habitando Gaia. “E aquilo que nesse momento se revelará aos povos/ Surpreenderá a todos não por ser exótico/ Mas pelo fato de poder ter sempre estado oculto/ Quando terá sido o óbvio”[2].

Galciani Neves
(abril, 2022)

[1] Géza Szamosi, Tempo e espaço: as dimensões gêmeas, 1988.
[2] Trecho da canção “Um índio”, de Caetano Veloso, lançada no álbum Bicho, em 1977.