Para a SP-Arte Rotas 2026, a Galeria Leme reúne obras de Sandra Gamarra Heshiki, Olinda Silvano Inuma e Jorge Enciso, propõe uma leitura dos saberes que continuam a estruturar a os imaginários visuais e a política da América Latina. Em vez de compreender essas tradições como vestígios do passado, as obras evidenciam essas tradições como sistemas vivos de conhecimento que seguem produzindo formas de representação e modos de habitar o território. Ao aproximar artistas oriundos do Peru e do Paraguai, cujas pesquisas transitam entre pintura, têxtil e cerâmica, a galeria propõe um diálogo que atravessa fronteiras nacionais e evidencia as continuidades culturais do continente.
Na cerâmica de Jorge Enciso, a matéria torna-se campo de investigação sobre as permanências da cultura guarani na formação da identidade Sul Americana. Enciso recupera técnicas ancestrais e incorpora grafismos derivados da escrita guarani para produzir obras que recusam dicotomias entre heranças indígenas e europeias, revelando a identidade latino-americana como uma construção plural, marcada por atravessamentos. Sua prática evidencia a mestiçagem não como síntese homogênea, mas como um território de reivindicação em constante negociação.
As tapeçarias de Olinda Silvano Inuma, uma das principais representantes do povo Shipibo-Konibo, constituem uma afirmação da permanência dos conhecimentos ancestrais diante dos processos de deslocamento e assimilação cultural. Construídas a partir do kené, complexo sistema gráfico que organiza relações entre corpo, território, espiritualidade e comunidade, suas obras tornam visível uma epistemologia que não distingue arte, cosmologia e vida cotidiana. Ao transportar padrões originários para o espaço contemporâneo da arte, Silvano evidencia o protagonismo da mulher indígena como agente de transmissão cultural e resistência política.
Sandra Gamarra Heshiki investiga os mecanismos de construção da história da arte e da identidade nacional por meio da reapropriação crítica de imagens canônicas. Em Pan de Oro sobre Retrato Indigenista II, a artista revisita uma pintura de José Sabogal, figura central do indigenismo peruano, cobrindo o rosto da personagem com folha de ouro. Ao interromper a promessa de transparência da imagem, Gamarra evidencia as operações de exotização, apagamento e projeção que historicamente moldaram a representação dos povos indígenas na tradição pictórica latino-americana.
Sem buscar uma narrativa unificada sobre a identidade latino-americana, a Galeria Leme aproxima três práticas que reafirmam os saberes indígenas como formas contemporâneas de produção de conhecimento. Em conjunto, as obras propõem uma revisão das narrativas históricas que moldaram a ideia de América Latina e questionamentos em torno da representação, da memória e das possibilidades de futuro do continente.
As obras de Jorge Enciso foram produzidas no Brasil durante uma residência artística na Galeria Leme, em São Paulo. Desenvolvidas integralmente no espaço da galeria, elas surgem da experiência de convivência com a arquitetura brutalista de Paulo Mendes da Rocha. Em vez de tomar o edifício como modelo formal, Enciso buscou escutá-lo: o peso do concreto, o silêncio das estruturas e a solidez de uma arquitetura concebida para durar tornaram-se matéria para sua investigação em cerâmica.
Partindo das técnicas ancestrais de modelagem manual da cerâmica guarani e de grafismos inspirados na escrita guarani, o artista constrói peças que preservam a memória da terra ao mesmo tempo em que absorvem ritmos, tensões e geometrias da arquitetura moderna brasileira. Nessas obras, concreto e argila não se fundem mas coexistem em uma tensão permanente entre permanência e fragilidade, tradição e contemporaneidade. Essas tensões permanecem em constante negociação, fazendo da cerâmica um território de trânsito onde diferentes formas de habitar e compreender o mundo continuam coexistindo.
As tapeçarias de Olinda Silvano Inuma afirmam a permanência dos conhecimentos ancestrais do povo Shipibo-Konibo diante dos processos de deslocamento e assimilação cultural. Construídas a partir do kené, complexo sistema gráfico que organiza relações entre corpo, território, espiritualidade e comunidade, suas obras tornam visível uma cosmologia em que arte, conhecimento e vida cotidiana são inseparáveis. Ao transportar esses padrões para o espaço contemporâneo da arte, Silvano evidencia o protagonismo da mulher indígena como agente de transmissão cultural e resistência política.
Reconhecida como uma das principais artistas contemporâneas do povo Shipibo-Konibo, Olinda Silvano Inuma participou da 60ª Bienal de Veneza (2024), Foreigners Everywhere. Seu trabalho também esteve presente em instituições como o Centre Pompidou, Paris, Fundación Cartier pour l’Art Contemporain, Paris, e na Bienal de Sydney. Em setembro de 2026 participa da exposição temática anual do MASP Histórias Latino-Americanas.
Em Pan de Oro sobre Retrato Indigenista II, Sandra Gamarra Heshiki revisita uma pintura de José Sabogal, figura central do indigenismo peruano, para investigar como a história da arte contribuiu para a construção dos imaginários sobre os povos indígenas. Ao cobrir o rosto da personagem com folha de ouro, a artista interrompe a promessa de transparência da imagem e evidencia os mecanismos de exotização, apagamento e projeção que historicamente moldaram sua representação na tradição pictórica latino-americana. Por meio da reapropriação crítica de imagens canônicas, sua prática questiona as narrativas da história da arte e propõe uma revisão dos repertórios visuais produzidos sob a lógica colonial.
Nascida em Lima, Peru, e radicada em Madri, Sandra Gamarra Heshiki representou a Espanha na 60ª Bienal de Veneza (2024) com o projeto Pinacoteca Migrante e, em 2026, realizou sua primeira grande exposição retrospectiva, Réplica, no MASP. Seu trabalho integra importantes coleções públicas e privadas, entre elas o Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofía (Madri), o Museo de Arte de Lima (MALI), o MoMA (Nova Iorque), a Tate Modern (Londres), a UBS Art Collection e a Colección Patricia Phelps de Cisneros (CPPC), entre outras.