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O Que Nos Fez Modernos / Imagens Nítidas em Ambientes Úmidos Sandra Gamarra

22.03.14 _ 03.05.14

Imágenes Crocantes en un Ambiente Húmedo (XX), 2014

A artista peruana radicada na Espanha, idealizadora e fundadora do museu fictício e virtual LiMac, apresenta “O Que Nos Fez Modernos / Imagens Nítidas em Ambientes Úmidos”, sua quarta exposição individual em São Paulo.

Dada a corrente promessa de modernização do Perú, para compreender como a presença real do estado no país e portanto como um direito para cada cidadão, esta exposição reflete o que aconteceu no Perú durante a primeira era da modernidade incompleta e o que isso significou posteriormente na sua falta de concretização.

“Uma tentiva de criar imagens nítidas num ambiente úmido” é como o sociólogo Aníbal Quijano descreve a impossibilidade de fazer poesia de vanguarda em Lima, o que também pode ser extrapolado no campo das artes visuais. As imagens nítidas que Quijano fala se referem às máquinas, à indústria e às novas idéias, numa cidade como Lima, sem um polo industrial e sem um desenvolvimento técnico, onde é impossivel criar e disseminar. Esse ambiente úmido não se refere apenas ao clima real de Lima mas também à “umidade social” que torna impossível para novas imagens, com margens limpas e cores planas, emergirem e se estabelecerem no imaginário coletivo. Essa umidade seria um produto de uma efevercência em andamento de um nacionalismo imposto, os vapores de um multiculturalismo cozinhado lentamente e da permanente oxidação do processo social.

O historiador Armando Alzamora descreve esse periodo (1916-1936), como: “Um determinado modo de pensar em espaços que começam a emergir, como um molde geométrico sofisticado, no qual duros blocos tinham de se encaixar, alguns incomuns, mas todos carregados com esse novo espírito. Para isto, esse tipo de mitologia avant-garde poderia apenas se desenvolver de uma forma paradoxal, não pela sua pluralidade, mas mais por seu caráter discursivo: a vanguarda. Foi, de fato, o meio exato, a dimensão perfeita para transpor os estados de um mundo em transformação que, por outro lado, existe apenas dentro de nós como uma ausência”

Artistas locais rejeitaram as promessas ocidentais de modernidade, e concientemente voltaram a recuperar a paisagem e o habitante Andiano, que visto de Lima parece tão distante como o passado, mas muito mais perto que a metrópole que foi anunciada pelo futuro. Esse movimento, denominado Indigenismo, teve uma perspectiva moderna já que se opôs temáticamente ao classicismo Europeu, utilizando formas que a mantêm à margem do que foi feito no continente.

Essa recuperação do Andino nas artes também se reflete em outros campos de estudo como antropolologia e arqueologia que se renovaram em uma versão mais integral na qual a distância entre o objeto de estudo e o pesquisador é abolida. O processo de integração da população rural tem seu climax durante a reforma agrária de 1968 que os tornou novamente donos de sua terras, que foram trabalhadas por eles durante gerações. No entanto, como o Estado não tinha sido capaz de concretizar a sua modernização adequada, sua promessa não cumprida tornou-se o terreno fértil para que, anos depois, grupos terroristas começassem a surgir no país durante a década de 1980 e 90.

Essa violência foi necessária, para que os Peruanos começassem a se entender como uma sociedade plural e multicultural. A seguinte frase do sociologista e filósofo Mirko Lauer “Violência nos tornou modernos” assim se aplica a uma modernidade que precisa de violência para continuar, um duo que se repete a cada tentativa.

Os trabalhos nessa exposição se opõem, misturam e forçam o imaginário moderno, com um registro fotográfico da violência dos anos 80, partindo do que o caricaturista Mexicano, Marcius de Zayas, mencionou sobre a nova fotografia ou pura fotografia como uma disciplina artistica que supera todas as formas porque traz uma comprovação plástica dos fatos, uma prova visual do que ele chama “verdades materiais do mundo natural”

A exposição de ambos imaginários, reúne duplos como modernidade/ violência, abstração/ realismo, aridez / umidade, no qual nenhum se sobrepõe ao outro mas, pelo contrário, são forçados a conviver.

Utilizando as icônicas pinturas “Homage to the Square” do artista Joseph Albers como um ponto de partida, imagens da violência terrorista da década de 80 no Perú, foram incluídas de uma forma quase invisível. Para se revelar, é necessário chegar perto da pintura, um movimento contrário ao proposto pelos pintores modernos. Similarmente, a série que tem o titulo da exposição, What Made us Moderns, consite em 10 pinturas criadas em tons graduais de cinza, que têm exatamente as mesmas medidas dos blocos de concreto com os quais a galeria foi construída. Deste modo, os trabalhos se integram à arquitetura e convivem com ela em um ato completamente moderno. Se olharmos para elas a uma distância, essa gradação da escala de cinza Kodak, coexiste sem entrar em atrito com a arquitetura. Mas em cada canto da pausa, medidas e monocromos clínicos, uma série de imagens aparece e quebra essa transição. Essas imagens nos contam sobre uma constante que é essencial e permanente.

Esta exposição também apresenta cópias de pinturas indígenas em contraste com imagens criadas fora do Perú, como uma tentiva de encontrar relações possiveis através da contrução de imagens que nunca exitiram.

Os videos entitulados “Abstractions”, “Natural Landscape” and “Ashes to ashes” são três reflexos da delicada relação entre a herança Pré-Colombiana, o presente rural e a cultura ocidental na luz das promessas de desenvolvimento e modernização.

Sobre o artista:

Sandra Gamarra Heshiki (Lima, Peru, 1972). Vive e trabalha em Madri, Espanha.

Entre suas principais exposições estão Setting the Scene, Tate Modern, Londres, Inglaterra (2012); At the Same Time, Bass Museum of Art, Miami, EUA (2011); XI Bienal de Cuenca, Cuenca, Equador (2011); Fiction and Reality, MMOMA, Moscou, Rússia (2011); Arte al Paso, Colleción Contemporanea del Museo Arte de Lima, Estação Pinacoteca, São Paulo, Brasil (2011); 29ª Bienal Internacional de São Paulo, Fundação Bienal, São Paulo, Brasil (2010); 53ª Biennale di Venezia, Veneza, Itália (2009); Seu trabalho faz parte de coleções como MUSAC, León, Espanha; MoMA, Nova Iorque, EUA e Tate Modern, Londres, Inglaterra.