A Galeria Leme apresenta “Controle | Corrosão | Dispersão”,exposição individual do artista Beto Shwafaty que reúne cerca de 15 trabalhos para pensar a sociedade contemporânea a partir de objetos, suas materialidades e os significados que carregam. Em seu trabalho, Shwafaty aborda como processos históricos, econômicos e sociais se inscrevem em itens do cotidiano, transformando-os em interfaces que ao mesmo tempo escondem e revelam essas tensões.
O título da mostra não busca categorizar as obras ou separá-las em núcleos, mas sim apontar para procedimentos recorrentes em diversos contextos sociais espalhados pelo mundo. “Procuro tornar essas operações perceptíveis sem ilustrá-las, permitindo que os próprios objetos evidenciem as relações históricas, econômicas e políticas das quais se originam e das quais são inseparáveis”, explica. “O interesse está menos em narrar uma história do que em construir um campo de relações, uma atmosfera de sentidos”. Para o artista, “controle” referese aos mecanismos de administração de corpos, territórios e recursos; “corrosão” aponta para o desgaste contínuo de formas sociais e materiais produzidos por estes mecanismos. Já “dispersão” representa a distribuição desigual dos efeitos destes processos e da dificuldade de atribuir esses conflitos
a um evento ou agente isolado.
Em “Controle | Corrosão | Dispersão”, os objetos interessam não só pelo significado ou simbolismo que projetam, mas também pelas condições materiais de sua existência. Nesse sentido, o artista emprega diferentes linguagens e materiais — como papel vegetal com açúcar, chá e café queimado em “Açúcar nas veias” (2017), ou a obra inédita “O sonho da terra, é o sonho americano”, que reúne itens como um bastão de baseball, um pé de cabra, algemas e um boné vermelho.
Além da reflexão conceitual, os trabalhos são construídos a partir das características físicas e materiais que os objetos escolhidos podem comunicar, afastando-se de estratégias de representação em favor da manifestação de relações materiais. É o caso de “Dark Horse [Black Rider]”, em que um tambor de petróleo Lubrax, uma sela de montaria, uma bandeira norte-americana e cunhas de madeira bruta formam uma estrutura cuja aparente solidez esconde uma condição instável e em permanente tensão.
Algumas obras dialogam com o momento atual de forma explícita, como “Choque” (2019), cuja forma remete simultaneamente a uma urna eleitoral, a um escudo balístico e às janelas de observação utilizadas em veículos blindados. “Na minha produção, busco subverter a expectativa de que a arte deve ser transparente, domesticada ou desinteressada, ou que esteja a serviço de um único propósito”, afirma o artista. “Acredito que produzir arte é uma operação que demanda um empenho tanto individual quanto coletivo para propor algo incerto e escorregadio”. Shwafaty apresenta trabalhos que dialogam abertamente com contextos contemporâneos — apontando para condições estruturais, não só pontuais.
Cada trabalho possui um verbete próprio, que o contextualiza e indica parte do processo e das ideias envolvidas em sua concepção, porém, sem se restringir a uma leitura só. “Não me preocupa que exista uma única interpretação das obras
ou da exposição, nem que a mensagem seja prontamente apreendida. O que me interessa é que o intervalo entre obra e espectador permaneça ativo, que produza reflexão e, talvez, algum tipo de emoção”, afirma.