Para a SP-Arte 2026, a Galeria Leme apresenta um estande com expografia concebida pelo escritório Pascali Semerdjian Arquitetos. A arquitetura ambientada propõe divisões sutis que organizam diferentes relações entre as obras e orientam o percurso do visitante. A seleção reúne, em sua maioria, trabalhos inéditos, articulados em torno dos eixos de pertencimento, identidade e memória, que atravessam as práticas apresentadas e sugerem diferentes modos de pensar a construção de imagens e narrativas na arte contemporânea.
Questões de pertencimento emergem nas obras de Sandra Gamarra Heshiki, Tiago Sant’Ana e Felipe Rezende, artistas que investigam as estruturas históricas e sociais responsáveis por regular quem pode, ou não, ocupar determinados lugares no mundo. Na série Porcentaje, Gamarra revisita a tradição das pinturas de castas para examinar como classificações raciais e linguísticas continuam a sustentar hierarquias sociais — investigação que atravessa também sua exposição retrospectiva inaugurada no MASP em março de 2026. Sant’Ana mobiliza o açúcar como material e símbolo em sua série Refino, revisitando imagens do período colonial para refletir sobre as marcas da escravidão e da diáspora africana na formação do Brasil. Em diálogo com essas pesquisas, Rezende apresenta pinturas produzidas durante sua residência no Black Rock Senegal, nas quais aborda deslocamento, encontro cultural e construção de identidade em contextos transnacionais.
As relações entre corpo, território e imagem aproximam as investigações de Jorge Enciso, Luiz Braga, Elisa Sighicelli e Jaume Plensa. Enciso mobiliza referências à arquitetura e à cosmologia guarani para refletir sobre heranças culturais. As fotografias de Braga reafirmam seu domínio cromático da região ao registrar a incidência singular da luz e das cores que atravessam as paisagens da Ilha de Marajó, construindo um vocabulário visual profundamente ligado à identidade amazônica. Sighicelli imprime imagens de esculturas clássicas de Vênus sobre mármore travertino, tensionando o ideal de beleza feminina herdado da tradição ocidental ao evidenciar fraturas e ausências no corpo idealizado. Em contraponto, Plensa apresenta em Blue Hermit uma figura masculina recolhida sobre uma rocha, cuja postura introspectiva suspende o ruído exterior e sugere um momento de interioridade.
A memória, por sua vez, atravessa práticas que articulam gesto, imagem e matéria. As pinturas de Gabriela Giroletti evocam paisagens e formas orgânicas que retornam ciclicamente como energia e movimento na superfície da tela. Gabriel Giucci apresenta uma nova série dedicada às frutas brasileiras, que continua sua pesquisa de reconstrução da iconografia histórica do Brasil. Heloisa Hariadne trabalha a pintura como campo de evocação de experiências e lembranças pessoais, enquanto Germana Monte-Mór desenvolve uma obra abstrata que investiga ritmo, estrutura e expansão pictórica.