Galeria Leme

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Neobarroco Coletiva

19.04.06 _ 23.06.06

Artistas: João Pedro Vale, Camila Sposati, Friederike Feldmann
"Foi bonita a festa, pá", 2006

Galeria Leme tem o prazer de apresentar a exposição coletiva Neobarroco, com trabalhos de João Pedro Vale, Camila Sposati e Friederike Feldmann

Sob técnicas e ópticas distintas, três artistas de diferentes nacionalidades apresentam obras que flertam com o barroco, movimento artístico surgido em Roma no século XVII.

Camila Sposati, brasileira – apresenta dois diferentes trabalhos oriundos de bonecos e personagens criados pela artista -“Armas de Fogo”, sequência de nove fotos onde os bonecos de plasticina (white tack) simulam uma disputa e duas esculturas feitas em pó de mármore.

Sobre a obra “Armas de Fogo” Sposati diz: “Gosto de lidar com questões de fronteiras, neste trabalho questiono quem é o agressor e quem é a vítima, quem é passivo e quem é ativo”. Camila, 34, desenvolve um importante constraste entre materiais frágeis e temporários. Ao final desta sequência quase documental, a artista não dá uma solução para seu questionamento, e sim o torna abstrato, de maneira poética, para melhor reflexão do espectador. Em suas esculturas o pó de mármore lembra um glacê de bolo de festa, rebuscado – o personagem meio monstruoso, meio deformado não assusta, mas surpreende, assim como sua base feita em madeira que demonstra uma instabilidade inexistente.

João Pedro Vale, português – a Galeria Leme recebe o jovem artista de 30 anos no mês de abril como parte de seu programa de residências. João expõem a instalação “Foi bonita a festa, pá”, título tirado da primeira estrofe da composição política “Tanto Mar” (1975/1978), de Chico Buarque. Na época, a música serviu para sintetizar o sentimento gerado pela Revolução dos Cravos (25 de abril de 1974), data que marcou a transição pacífica do regime ditatorial português para a democracia. A obra é composta de uma jangada produzida especialmente para a mostra no Nordeste do país, coberta com tampas de garrafas de cerveja entre outras a da marca portuguesa Sagres, homônima do navio escola Português e de parte da região sul deste país, área mais associada as descobertas. “É como se o barco e suas memórias estivessem esquecidos no fundo do mar, coberto por caricas (tampinhas)”, explica João.

João Pedro Vale é um dos principais expoentes da cena artística contemporânea portuguesa, e usa a memória como uma das suas principais aliadas na hora do processo criativo. Já produziu, em sua tragetória, outras obras utilizando barcos, uma delas exposta recentemente na mostra “Portugal Novo”, na Pinacoteca do Estado de São Paulo. João também evoca sua memória natal nos pratos que apresenta, feitos a partir de maços do cigarro Português Suave, nome dado a arquitetura ornamental portuguesa construída na época da ditadura militar. A padronagem dos pratos tem como referência os icônicos azulejos do século 18, trazendo consigo palavras de poemas populares da literatura portuguesa e brasileira, respectivamente de Augusto Boal e Fernando Pessoa. Assim como o barroco, as obras apresentadas por João Pedro Vale expõem contrastes sociais através da unificação de corpo e alma, como o erúdito e o popular.

Friederike Feldmann, alemã – a artista expõe quatro obras da poética e intimista série “Zimmer” (“Quartos”). As imagens são reproduções dos mais luxuosos quartos de palácio, ambientes que, de acordo com a artista, contém auras e status que os tornam adequados para a reprodução através da pintura. Estes são respectivamente os quartos do Rei, da Rainha e o “Millionezimmer”  (“Quarto Milionário”). Uma das obras mostra também uma reprodução do quarto de Maria Antonieta (1756-1798), última rainha do antigo regime francês. Friederike mistura silicone e tinta acrílica, como pigmento, e trabalha com uma bolsa similar a de enfeitar bolos, resultando numa imagem rebuscada e repleta de contrastes de luz. A suntuosidade e os excessos do movimento barroco, características até hoje reverberadas na produção artística, aparecem com mais clareza na obra de Friederike, 44. Suas pinturas não se rendem somente a expressividade; sua grandeza encontra-se na lenta e paciente transformação de suas reproduções.