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Mauro Piva

16.06.16 _ 20.08.16

Autorretrato como teste de cores (o que sobrou) I, 2016

After

Em uma lenda contada pelos romanos, dois pintores virtuosos iniciaram uma disputa para definir quem seria o mais habilidoso. Zeuxis revelou uma pintura tão realista que os pássaros se aproximaram tentando comer as uvas, e vangloriou-se de ter enganado os animais. Parrhasius, por sua vez, pediu ao rival que descerrasse a cortina que ocultava sua obra. Zeuxis, ao tentar afastar o tecido, percebeu que na verdade a cortina era pintada, tendo sido ele mesmo ludibriado.

Ao entrar no ateliê de Mauro Piva pela primeira vez, era possível deparar-se com uma série retalhos de papel fixados com fita crepe sobre grandes folhas em branco. Nos fragmentos rasgados, viam-se desordenadas manchas coloridas de variados tons e tamanhos – pequenos retângulos de matiz sólida, grandes borrões mais aguados, linhas de diferentes texturas e espessuras. Havia mais de trinta folhas pela parede. À primeira mirada, uma conclusão evidente: o artista havia guardado, e agora organizado, os testes de cor de distintas intensidades, proporções e densidades, apropriando-se do refugo de seu próprio trabalho – fixou os restos de papel com fita sobre fundos neutros como uma forma de exibi-los.

No entanto, o olho, depois de se acostumar com os detalhes, passava a enxergar pequenas distorções que incomodavam. Os diferentes materiais empregados nas supostas colagens pareciam se fundir e, em alguns momentos, surgia a dúvida sobre a presença da fita adesiva; em outros, sucedia a impressão de que não havia sobreposição de duas lâminas, e sim cortes e rasgos que levantavam camadas de uma só folha, às vezes deixando entrever a parede por detrás.

Esta nova série é, por um lado, um desdobramento de uma longa pesquisa do artista. Em 2013, por exemplo, desenvolveu trabalhos que simulavam a presença de muitas fitas adesivas coladas sobre a superfície do papel, usando na prática tinta e estilete para representar em um suporte único a sobreposição de dois materiais distintos. Neste mesmo conjunto, mandou fundir em alumínio pequenos objetos no formato dos rolos de fita para depois pintá-los, emulando a mercadoria real. Seus Post-itesquemas e Bilhetes seguiam a mesma lógica: a partir de uma folha única de papel robusto, dissimulava a fixação de um pedaço de folha de caderno ou post-it sobre uma base neutra, manejando o estilete e criando ilusões com a tinta.

O processo de criação desses simulacros é árduo e demanda tempo, desde a delimitação da máscara que distingue objeto e fundo, até a habilidade nos gestos com a lâmina para descamar a fibra do papel, passando pelo virtuosismo de reproduzir da forma mais perfeita possível à mão humana as pautas, as marcas e texturas dos materiais imitados. Nesta exposição, indo mais longe, Piva apropria-se não apenas de materiais industrializados ou de referências. É o que sobra de seu ofício de pintor que passa a ser elementar para este novo projeto. O tamanho dos cortes, a posição do desenho, o formato da pincelada – entre original e cópia, há pequenas diferenças que são aceitas apenas na medida em que o artista as considera parte do procedimento e se permite errar um pouco.

Por outro lado, as obras desta exposição também dão continuidade a outra investigação de Piva que passa pelas infinitas maneiras de se autorretratar. Vários duplos já haviam sido representados em seus retratos como pincel, como lapiseira ou como lápis apontado, e mais recentemente, vinha experimentando modos de se retratar como tinta. Apesar de insatisfeito com o resultado, estes experimentos despertaram seu interesse de interpretar-se como cor. Ao visitar uma exposição de Matisse, na qual viu retalhos de papel pintado que sobravam das colagens do artista francês, Piva entendeu a possibilidade real de uma outra espécie de autorretrato a partir dos resíduos de sua própria atividade.

Mantendo os mesmos suportes que já faziam parte de seu vocabulário, passou a apropriar-se dos testes de cor que frequentemente realizava no processo de fatura das obras anteriores. Estes “ensaios”, parte intrínseca de seu ofício, vinham sendo acumulados no ateliê há algum tempo – são pedaços e restos de papel usados para testar nuances, a diluição da aquarela, a intensidade da pincelada, a grossura do traço e a textura da tinta sobre o papel. Curiosamente, ao tentar reproduzi-los, era preciso praticar novos testes, que por sua vez podiam servir de matriz para novos simulacros, e assim por diante, em um auto-encadeamento quase infinito.

O políptico com os variados testes deu origem a outros tipos de autorretrato, como a reprodução do papel higiênico usado para limpar os pinceis, e até mesmo dos godets usados para misturar as tintas (que também foram fundidos em alumínio e coloridos para tentar reproduzir fielmente os vestígios de tinta, como uma pintura tridimensional). Estas obras são as múltiplas versões que Mauro Piva (re)criou de si mesmo – assimilando as inevitáveis pequenas imprecisões inerentes ao procedimento manual. A dimensão mais forte e o aspecto mais relevante deste conjunto, contudo, não residem na técnica e maestria necessárias à execução dos simulacros, muito imediatas aos olhos, mas sim na potência de apropriar-se de si mesmo, dos próprios acidentes, de todos os traços fortuitos que foram feitos até aquele momento e de toda a esfera íntima que ali se materializa.

O encontro com Matisse também despertou a curiosidade sobre outros artistas que tivessem como prática em seu processo criativo a realização de testes e esboços de cor. Deparou-se com Ellsworth Kelly, William Turner, Caspar David Friedrich, Elizabeth Peyton, Josef Albers e William Kentridge e decidiu, então, duplicar o material marginal que ia encontrando. Com extrema destreza, alcançou o mesmo efeito surpreendente de seus autorretratos.

Além do método laborioso, intrincado, Piva teria ainda que aprender a simular a mão de outra pessoa. Se já havia analisado ad nauseam a própria pincelada, foi preciso investigar e estudar à exaustão a pincelada dos outros pintores, íntima e descompromissada. Nesse sentido, encará-los não foi uma maneira de pintar seus retratos, mas de transfigurar-se para ser Albers enquanto reproduzia os testes de Albers, ou de incorporar Turner ao duplicar a pincelada de seus cadernos de desenho. Mauro Piva, assim, transforma testes de cor em autorretratos, seja de si mesmo ou de qualquer outro artista – não sem reconhecer que, para ele, entre os originais e suas reproduções há uma imensurável distância, como quando vemos o reflexo de uma figura sobre a água.

Julia Lima
Maio 2016