Galeria Leme

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Condomínio Vivian Caccuri

07.05.15 _ 13.06.15

Janela 1 (série Pagode), 2015

Caminho, furo no muro

(ao meu amor)

Éramos 16 pessoas enfileiradas e silentes. Quase imóveis, encarávamos o coração do sistema de ar condicionado central instalado no subsolo do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Depois de algum tempo, enquanto o condensador continuava a jorrar centenas de litros d’água por sua enorme cachoeira de metal verde, alguns fechavam os olhos, outros sentavam no chão frio, outros começavam a se movimentar pelo longo e úmido corredor. Estávamos no heliporto no terraço do prédio Santos Dummont um dos mais altos edifícios do Centro carioca. Sozinhos, lá de cima, podíamos ver o Pão de Açúcar, a Marina da Glória, o Aterro do Flamengo, a Praça Paris, o Edifício Gustavo Capanema e parte do bairro da Lapa além do movimento de milhares de carros, ônibus, aviões, pessoas e pássaros. Estávamos andando na Avenida Chile em frente ao Edifício Sede da Petrobrás para então chegar à monumental Catedral São Sebastião com formato cônico e paredes de concreto e vitral. Estávamos no camelódromo da Avenida Presidente Vargas. Estávamos no Parque Campo de Santana acompanhando funcionários da Prefeitura que alimentavam os pavões, patos-do-mato, gansos e cotias que vivem soltos no local. Estávamos na capela lateral do Mosteiro de São Bento, impressionante tesouro barroco do século XVI, esperando que soassem os sinos da igreja que anunciariam o início da missa especial com orações entoadas em canto gregoriano pelo coro clérico. Estávamos em silêncio, juntos e dispostos a ouvir o mundo, havia 10 horas quando nos despedimos. Era dia 28 de Setembro de 2012, e aquela era apenas a primeira das Caminhadas Silenciosas, projeto que Vivian desenvolve há 3 anos.

Desde então, foram mais de 20 circuitos diferentes em 6 cidades pelo mundo, sempre com o mesmo modelo: Caccuri convida um grupo de até 20 pessoas para caminharem juntas em silêncio por um determinado trajeto especial por até 8 horas. Nesses percursos, há um momento em que os participantes se alimentam juntos, e pode haver um instante em que a artista produz efeitos sonoros com pequenos microfones, amplificador portátil e um pedal de efeitos.

O desenrolar da experiência aos poucos altera as estruturas da percepção do mundo das pessoas do grupo e, desse modo, também transforma suas reações (de movimento e pensamento) à realidade, principalmente ao provocar um estado quase meditativo de hiperatenção que converte os caminhantes em investigadores de detalhes sonoros, espaciais e relacionais. As condições impostas pelo trabalho (estar junto, caminhar e não falar) gradualmente instauram nos participantes um posicionamento humilde e generoso. Nos momentos de contato com o mundo falante, surge também uma forte e interessante sensação de coletividade partilhada por pessoas que podiam antes não se conhecer. De cada investida (e dos processos ambulantes de pesquisa anteriores às ações), Vivian traz muitas descobertas.

A exposição “Condomínio”, primeira individual da artista em São Paulo, que acontece na Galeria Leme de 7 de maio a 13 de junho de 2015, reúne as experiências e descobertas de Caccuri nas Caminhadas Silenciosas com uma pesquisa obsessiva e mais recente da artista sobre a estrutura física e social que se manifesta conceitualmente como “condomínio”.

Dessa forma, a exposição apresenta obras que se valem não apenas das elaborações teóricas sobre espaço urbano, som e coletividade, mas também de materiais encontrados nas caminhadas. Esse é o caso, por exemplo, da série Pagode para a qual a artista manipula diversos tipos de telas plásticas (como as utilizadas para proteger canteiros de obra, fachadas de prédios em reforma e mosquiteiros) além de frações de barras de metal usadas para fazer grades e cacos de garrafa de vidro como os que são cimentados sobre muros com o intuito de evitar invasões. Todos esses materiais foram avistados recorrentemente durante as caminhadas silenciosas, porém, invertendo seu uso regular (impedir o movimento e cercear o encontro), os trabalhos da série Pagode foram elaborados para serem ativados pelo público, individual ou coletivamente. Os objetos que pendem dos fios verticais estão afinados para serem tocados como instrumentos musicais e, dessa forma, estimulam o movimento e o encontro. Os títulos das obras dessa série (Jardim, Janela, Bandeira, Brutal etc.) fazem referência a expressões da arquitetura.

Outro trabalho dessa exposição que também utiliza materiais revelados pelas caminhadas silenciosas é My Mistake 2, desdobramento da pesquisa potencializada durante sua residência no Pivô em 2014. Vivian se deparou com chaves descartadas por chaveiros do Centro de São Paulo por razões de defeito ou falha na gravação do segredo, e esses pequenos objetos de metal, reutilizados, são pendurados em fios de nylon presos a pregos de modo que, se ativados pelo público, também alcançam efeito sonoro. Os traçados formados pelas linhas de chaves nas paredes são reproduções de gráficos de pesquisas econômica e de opinião.

O objeto intitulado “Adeus” é composto por um aparelho sonoro mini system com microprocessadores, receptores FM e antenas acopladas capazes não apenas de sintonizar faixas de rádio mas também de perceber movimento. Quanto mais próximas as pessoas estão das hastes metálicas, mais sensíveis elas são às ondas FM, emitindo, assim, menos ruídos na decodificação dos sinais eletromagnéticos e, por consequência, mais precisão em sua transformação em ondas sonoras propagadas pelo ambiente. O trabalho sublinha a relação importante para as Caminhadas entre movimento, percepção do som e de diferentes territórios e domínios, metaforizados pelas diferentes estações FM.

Para os trabalhos do projeto Bias (Semblante), Vivian voltou à mesma sombra da figueira centenária no Parque Campo de Santana onde os caminhantes outrora descansaram assistindo os pavões e cotias serem alimentados naquela primeira Caminhada Silenciosa de 2012. Dessa vez, a artista estava com uma pequena equipe de assistentes e portava um estúdio fotográfico móvel, um cartaz no qual se lia “Troque seu retrato por uma garrafa d´água” e um isopor com algumas centenas de frascos da bebida. Por 5 horas, Caccuri realizou as trocas por fotografias frontais dos rostos dos passantes interessados e, posteriormente, processou esses retratos utilizando uma das primeiras tecnologias de reconhecimento facial, chamada Eigenface. Essa técnica normalmente sobrepõe diversos retratos da mesma pessoa para criar uma mancha que se torna uma espécie de impressão digital facial. Para os trabalhos dessa série, Vivian somou digitalmente as formas dos rostos de cem indivíduos diferentes (a sede por água funcionou como forma de atingir o público mais diversos possível), gerando uma imagem fantasmagórica que, por não sinalizar um único equivalente real no jogo da representação, aponta conceitualmente a todos como retratados. Numa exposição que pensa o condomínio, esse trabalho, como os outros presentes nessa mostra, serve a complexificar as investigações sobre esse tipo de organização arquitetônica da sociedade que tem como maior objetivo excluir o que está fora de seus muros e separar o que está dentro dos limites do terreno para que não haja espaço para erro, acaso ou indeterminação.

Muros cumprem sempre a função de criar, delimitar, lugares a partir da materialização de um limite físico que é sintoma de uma demanda do desequilíbrio de poder na sociedade. Se é nos muros que há muito são expressas manifestações de crítica social e política é porque eles representam e são a separação entre as pessoas e entre os grupos: a restrição ao convívio, aos fluxos, à troca e, portanto, à mudança. Nessa exposição, é como se o muro se pixasse com tintas de muro, e a possibilidade de ativar os trabalhos nos lembra da chance de transformação de tudo. A abertura que o som dessas obras cria, metaforicamente, nos muros, é uma abertura ainda maior: para afetar e ser afetado.

Bernardo Mosqueira, 2015