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A Realidade Morde a Própria Cauda Lúcia Prancha

20.06.13 _ 20.07.13

Neste zigzag de vozes e testemunhos sabia-se que o pai das criaturas coleccionava caudas de boi, 2013

Eu nunca estive ali. Tudo se passou naquele momento, em que o ambiente de trabalho do meu laptop se convertia em Screen Saver. Numa espécie de cortina, que dividia dois espaços e, se até a um dado momento me permitia ver o que havia do outro lado ou ao fundo, agora tornava o meu aparelho cada vez mais escuro.

Já do outro lado, percebi que do tecto desciam cobras, com costas vermelhas e barrigas brancas, dos refugos das dunas. As suas estreitas caudas agarravam um sustentáculo de espelhos perpendiculares entre si, que reflectiam no seu espaço, o que havia à volta. Como se o ecrã do meu Mac se tivesse dobrado a 45º e nele pudesse ver reflectido as coordenadas cartesianas XYZ, por sua vez multiplicadas verticalmente. Como se existissem dois mundos, o de cima e de baixo. Mas as probabilidades de tudo isto ser verdade ou real virtualizava-se velozmente.

Nesta concorrência de acontecimentos vi alguém que agrupava cartões de risco. Um rapaz jovem, super alto e magro controlava a “cadeia de cartas”, essa série de cartões estreitos, perfurados e atados por um fio, que pareciam seguir uma sequência contínua. Eu tenho como imagem que enquanto o indivíduo arrumava os cartões dizia: “O papel foi perfurado para criar um padrão, a partir da proporção matemática 1+1=3 que representava números com diferentes valores, com diferentes realidades… Não só aquelas que nós conhecemos comummente…”. Eu já tinha visto uns cartões destes na Covilhã, numa daquelas fábricas que fecharam logo a seguir ao 25 de Abril… Agora são museus e universidades… Num desses museus dos lanifícios, a museóloga Helena disse-me: “Esses pedaços de papel foram inventados por um francês, Joseph Marie Jacquard, para o seu tear mecânico, em 1801. Com estes cartões as linhas do tear entravam e saíam pelos buracos, como se fosse um programa de computador mecânico. Isto simplificou muito o processo de fabrico de têxteis com padrões complexos”.

Ainda nisto, ouviam-se lá para o fundo duas crianças albinas que brincavam com discordantes tipos de dados. Em forma de cubo, em forma de tetraedro, em forma de octaedro, dodecaedro, ou icosaedro… Lá da frente diziam que os miúdos tinham nascido na Ilha dos Lençóis do Maranhão… Eles faziam parte daquelas gentes, infamados por certas peculiaridades históricas. De um lado, a natureza paradisíaca com lagoas, praias, dunas que cobriam o território, abundância de marisco durante o ano inteiro, mas também esse um lugar de um povo esquivo, amargado, condenado ao albinismo e à crença de um Rei desaparecido…

Eu nunca os vi, só os ouvia. Neste zigzag de vozes e testemunhos sabia-se que o pai das criaturas coleccionava caudas de boi. Não os matava, só lhes amputava a cauda e arrecadava-as preciosamente na expectativa de um dia encontrar o touro da dita estrela na testa. Da mãe destas crianças, também albina, sabia-se que estendia roupa em estruturas de ferro brancas cravadas numa das 90.000 dunas dos Lençóis Maranhenses. Vim a descobrir mais tarde que, aquelas estruturas brancas, quase invisíveis à miragem da paisagem, ali estavam desde que as crianças nasceram. Cada estrutura de metal tinha a largura de três livros, de três escritores portugueses. Mais exactamente, a relação com o número de páginas de Os Lusíadas (1572) de Luiz de Camões, A História do Futuro (1718) de Padre António Vieira e Mensagem (1934) de Fernando Pessoa.

A única coisa que recordo, é que nesse dia tinha vestida a minha t-shirt, com a fotografia de Rui Reininho dos GNR a cantar Portugal na CEE, num concerto nos anos 80 em Lisboa.

Sobre a artista:
Lúcia Prancha (Coruche, Portugal, 1985). Vive e trabalha em São Paulo.
Formada em Artes Visuais pela Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa (2009) e pela Universidade de São Paulo (2012), recentemente apresentou a sua primeira exposição individual: “O sol que emite uma luz negra” na Red Bull House Of Art, Lisboa, Portugal (2012). Entre suas exposições coletivas destacam-se: “Say what you have to say, put it on the table and walk away… and see what it does”, Baginski Galeria / Projectos, Lisboa, Portugal (2012); “Princípios Flexor”, Galeria Gramatura, São Paulo, Brasil (2012); “TEXT´o-&-figura”, curada por Rolando Castellon, Museo Nacional de Costa Rica (Museo de los Niños), San José, Costa Rica (2010). Participou das residências: Residências ZDB, Zé dos Bois, Lisboa, Portugal (2009 e 2013); Red Bull House of Art, Lisboa, Portugal (2012); FAAP, Fundação Armando Álvares Penteado, São Paulo, Brasil (2010).